martes, 9 de julio de 2019

Clepsidra, en portugués

El poeta Eugénio de Sá tradujo al portugués el último poema de Carlos Penelas


Clepsidra

Eu olho para o meu rosto num espelho.

Agora o cabelo é branco.

Eu lembro que havia céus, trens, sacadas,

a vastidão do tempo, o sorriso.

Meu rosto num espelho.

Com quem vou ter que viver?

Onde está aquele que eu era

como eu vim para ter esse visual

essa boca, essa expressão, essas pálpebras?

No entanto, eu me reconheço.

Estou procurando a criança que uma vez fui.

Os jogos, as histórias, as redes. O mar.

Eu procuro a profundidade, o poema, a tarde transparente.

Eu vejo o rosto do pai no espelho

um gesto do irmão, o olhar da mãe.

Eu acho que vejo meus filhos na beleza e na luz.

Os anos me deram uma certa nobreza,

o sucessivo assombro e amor sucessivo,

algo solitário, incerteza, nudez,

uma leve melancolia, uma alegria secreta.

(Às vezes eu imagino os estuários, uma respiração,

certo estado de coisas ao andar, os sinais,

uma felicidade que engloba outra memória.

E eu não sou eu nesse encontro).

Hoje tenho setenta e três anos.

Eu olho para o meu rosto no espelho.

Carlos Penelas
Traducción al portugués por Eugénio de Sá (Sintra, Portugal)

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